Gilberto Gil, o Zen e a Academia


imagem: Geovane Peixoto

A eleição de Gilberto Gil para uma vaga de 'imortal' carrega consigo certa ponta de ironia. É o q tento hoje demonstrar.

A Academia Brasileira de Letras, como se sabe, foi concebida nos mesmos moldes da Académie Française q existe desde os tempos de Luís XIII e q por sua vez evocava o espírito dos Jardins de Akademus em Atenas, onde Platão conviveu com seus discípulos, antes de Cristo.

Foram os franceses q criaram a alegoria da 'cadeira vitalícia' q a Academia Brasileira adota, inspirados sem dúvida no modo de pensar a vida e a morte da Grécia antiga.

A imortalidade, 'segundo o consenso grego', significava continuidade no tempo, vida perpétua e isenta de velhice tal como foi dada à natureza e aos deuses do Olimpo.

Os seres humanos, a despeito de sua mortalidade individual, teriam capacidade de deixar atrás de si vestígios imorredouros ao produzir obras, realizar feitos e proferir palavras q 'mereceriam pertencer à eternidade'.

Esse ancestral conceito de 'imortalidade' como resistência ao oblívio foi bem assimilado por todos aqueles q, nas redes sociais, manifestaram alegria pelo reconhecimento de Gilberto Gil como nome q por certo jamais se apagará da memória pátria. Um legítimo imortal, ainda q a legitimidade da ABL seja com frequência posta em discussão.

Gil, além de ser um dos compositores de música popular q mais diretamente tematiza a 'existência', é visto também como alguém em permanente busca pela ascensão espiritual. O caminho q ele escolheu para dar conta da tarefa tem sido belo, longo e tortuoso e está registrado em inúmeras letras dos mais de 50 álbuns produzidos desde a década de 1960.

Um passeio pelo cancioneiro dele rapidamente revela o q chamo aqui de 'sutil ironia'. O menino criado em Ituaçu foi se consolidando, no transcorrer do tempo, como um poeta do desapego e do despojamento. Sua arte pode ser descrita como um longo discurso sobre a impermanência, e de certa forma, um antídoto contra a vanglória e a ostentação q acometem eventualmente os homens célebres.

Em outras palavras, Gil parece não dar a mínima para a tal imortalidade.

Senão, vejamos.

Lá nos primórdios, jovem, ele se colocava como artista/ativista, avesso, portanto, a questões outras q não os negócios humanos na Terra. No primeiro LP, saído em 1967, há, inclusive, uma parceria com o papa da música de protesto Geraldo Vandré.

Na faixa título daquele álbum, Louvação, Gil promete louvar "o q bem merece" e deixar "o q é ruim de lado". Louva, então, não algum santo, ou herói, mas "a força do homem e a beleza da mulher", o "amor que espanta a guerra" e a "luta repetida da vida pra não morrer".

Em Viramundo se compromete com a ação política: "inda viro este mundo em festa, trabalho e pão".

Em Procissão, arremata: "Entra ano e sai ano e nada vem / Meu sertão continua ao Deus-dará / Mas se existe Jesus no firmamento / Cá na Terra isso tem de se acabar".

Importante não perder de vista q a utopia revolucionária acontece no futuro, mas é revestida de um caráter de urgência. É também concebida como luta coletiva em q os grandes feitos individuais só ganham sentido quando retornam na forma de empoderamento das 'massas'.

Em Soy Loco por Ti, América, por exemplo, há uma menção ao Che, "el hombre muerto" cujo "nombre" fora proibido de ser mencionado. E conclui: "Antes q a definitiva noite se espalhe en Latino America: el nombre del hombre es pueblo".

O segundo disco, de 1968, cuja foto de capa traz Gil vestido com algo próximo de um fardão da Academia de Letras, tem a sonoridade moldada pela presença anárquica dos Mutantes e do maestro Rogério Duprat, mas mantém o ideário de esquerda, agora acrescido da crítica à pequena burguesia q tanto caracterizou o Tropicalismo.

A tragédia de Domingo no Parque, o "pão seco de cada dia" de Marginália II, o patético "homem de bem" q morre atropelado em frente ao prédio onde iria contratar um seguro de vida, "o tempo passando" em Domingou, ou a Coragem pra Suportar das gentes do sertão, tudo q parece digno de ser cantado diz respeito às urgências do presente e a presença da morte - em sentido estrito - é talvez a principal questão a se enfrentar.

O LP de 1969, produzido em prisão domiciliar depois do momento em q caiu nas garras da Ditadura, registra mudanças na forma de compor, cantar e tocar de Gil. As letras migram 'para dentro': introspecção e subjetividade vêm se somar ao imaginário futurível de robôs, astronautas, cérebros eletrônicos e objetos 'semi-identificados'. É uma fase de papos-cabeça. "Eu estou muito tranquilo, pousado no meio do planeta, girando ao redor do sol", diz em A Voz do Vivo, e manda Aquele Abraço.

Este trabalho, somado ao disco de Londres e, em seguida, ao Expresso 2222, álbum feito no retorno do exílio, inicia o q pode ser chamado de trilogia 'Crazy Pop Rock'. O olhar é menos político e mais antropológico. Sai a luta de classes e entra um esboço de identitarismo. Não mais épico, mais lírico. À moda pop-rock: individual. A mítica jornada do herói: pessoal e intransferível.

"Eu vivo calmargalarga, abertamente bem mais louco".

Ainda não se fala em transcendência, mas surge no horizonte um Oriente.

*

Continuando o passeio, RefazendaRefavela e Realce trazem o Gilberto Gil da maturidade artística.

As ideias de 'expansão da consciência' do período 'Crazy Pop Rock' vão se consolidar e corresponder a um pano de fundo do retorno à política q chega pela via da negritude diaspórica e da baianidade.

Gil também vai assumir o lugar de comentador das tendências da Cultura e da Indústria Fonográfica q, se já fazia parte de sua persona desde o projeto tropicalista, a partir de agora se aprofunda.

Em cada um dos pontos deste tripé, ganha corpo a ideia do despojamento e do desapego.

Na fase dos experimentos com meditação, drogas e macrobiótica, os "espirituais sinais iniciais" das canções de Gil convidam a "brincadeiras" q "gente maluca gosta de fazer"... sem nunca abrir mão do compromisso de "retirar" tudo o que disse, e de "reticenciar" tudo o q jura.

Rouxinol, feito "de seda com cheiro de jasmim", como um cigarro de maconha, canta "com um toque diferente" e vai embora "na boca da aurora". 

As 'patrulhas ideológicas' abominavam este Gil "dentro de si mesmo, mesmo que lá fora".

É aí q provavelmente a própria fama, maior dia a dia em todo o país, leva o compositor a voltar de novo os olhos para as multidões. Depois de longos anos de "recolhimento" meditando sobre "o significado da palavra temporão", Gil adentra "o ambiente efervescente" da Refavela onde a preta Maria, o Zé e o João dançam um "samba duro de marfim".

"Brasileirinho pelo sotaque, mas de língua internacional", o reencontro com a coletividade reivindica o "salário mínimo de cintilância a que têm direito todos os anônimos".

É o Gil da celebração e da dança. O Gil q volta a pensar e viver de modo novo A Rua. O corpo presente. O prazer presente para o corpo. Os corpos no presente: "com a cor do veludo, com amor, com tudo de real teor de beleza".

As 'patrulhas ideológicas' abominavam.

A passagem do tempo terreno e a dimensão do futuro não estão ausentes. Surgem, por exemplo, com a amada Flora, q ele prenuncia "jaqueira postada à beira da estrada: velha, forte, farta, bela, senhora". Ao pé da árvore dispõe então muitos caroços, "como que restos" dos próprios sonhos devorados pelo "pássaro da aurora", o nascer de cada dia a consumir os planos da existência.

A divindade nos moldes judaico-cristãos também se revela. Para "falar" com Ele, é preciso folgar os nós, perder a conta, lamber o chão, ter mãos vazias, alma e corpo nus.

Deus, o tempo, o zen, o Tao, a corporeidade dos orixás, os múltiplos destinos vislumbrados no I Ching, tudo leva ao despojamento: "ame-o e deixe-o".

A espiritualidade em Gilberto Gil é demarcada pela experiência do desapego. O correr do tempo, transcodificado pela ancestralidade.

O comentador

Na música de Gil, além de pensados e falados os tempos q correm são também 'audíveis'.

Ele escolheu, em decisão espelhada com o mano Caetano, se colocar como comentador da Cultura e da música popular: o artista-crítico, postura consagrada nos meios da 'alta cultura' q a dupla transplantou para a Indústria do Entretenimento no Brasil, como havia sido feito, por exemplo, por John Lennon ou David Bowie em terras de língua inglesa. Uma espécie de João Gilberto ao avesso, Gil se dedica à desconstrução contínua do próprio estilo, decalcando em cada disco as tendências de mercado e sonoridades do momento (Caetano faz o mesmo).

É assim q os LPs da trilogia 'Crazy Pop Rock' abusam de pedais Fuzz nas guitarras, de levadas Hendrix na bateria, reverbs de mola e outras traquitanas de estúdio na moda de então.

Refazenda tem o indefectível Ovation com cordas de nylon espetado num pedal Flanger 'no talo' como-ninguém-nunca-mais-usaria (thanks, God!) e Refavela dialoga com o pumping bass e as levadas funk dos bailes black q movimentavam os subúrbios cariocas na segunda metade dos anos 70.

De Realce pra frente os exemplos se multiplicam e a atitude se enraíza. Metais à Earth, Wind & Fire, Logunedé e Toda Menina Baiana. Teclados DX7 Yamaha, baterias eletrônicas e "Banda Um...no Zanzibar pro negro zanzibárbaro dançar". Guitarras new wave, o Punk da Periferia e o Rock do Segurança. O padrão Liminha de produzir 'Nas Nuvens' e masterizar em Los Angeles, Pessoa Nefasta e um reggae com The Wailers em pessoa.

Baiano da diáspora, mergulhado no Mercado e na Cultura, cada disco de Gil tem sonoridade datada. "Profusão de paródias", como definiu Caetano Veloso? A música de Gil também pratica o desapego. Lastreada no talento inesgotável do cantor-compositor-violonista-arranjador, se deixa permear pelos fluxos da época. Corre com o tempo. Não tem receio de envelhecer.

Caetano já dizia em 1968 q foi Gil quem teve a "coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas".

"Diz o I Ching: divino é saber / São dois no ringue / Você e você".

Antes do fim do milênio, algo ainda irá se agregar às perquirições de Gil. Justamente, e enfim, passa a ser frequente e explícito o retorno ao tema do eterno. A síntese vem em Tempo Rei: "Tudo permanecerá do jeito que tem sido: transcorrendo, transformando". O universo, portanto, muda permanentemente e só é perene na mudança. O Eterno Deus Mu Dança. A transformação é o "jeito q tem sido". Por isso ele pôde, anos antes, dizer sem medo: "Se a morte faz parte da vida e se vale a pena viver, então, morrer vale a pena". Ou "o verdadeiro amor é vão, tem q morrer pra germinar".

O álbum mais recente, OK OK OK, onde o tema da velhice é dominante, figura como a expressão quiçá mais aguda de toda essa meditação crônica sobre o tempo.

Por fim, uma entre tantas centenas de composições trata da imortalidade com todas as letras. É do hoje longínquo ano de 1985 e resume o q o presente post tentou demonstrar. Vale a leitura na íntegra:

LOGOS VERSUS LOGO


Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade

Celebra-se, poeta que se é,
Durante um tempo a ideia radical
De tudo importar, se para o supremo ser
De nada importar, se para o homem mortal

Abarrotam-se os cofres do saber
Um saber que se torne capital
Um capital que faça o futuro render
Os juros da condição de imortal
(Mas a morte é certa)

Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade

E assim por muito tempo busca-se
O cuidadoso esculpir da estátua
Que possa atravessar os séculos intacta
Tornar perpétua a lembrança do poeta

Mas chega-se ao cruzamento da vida
O ser pra um lado, pra outro lado o mundo
Sujeita-se o poeta à servidão da lida
Quando a voz da razão fala mais fundo
(E essa voz comanda)

Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade

E o bom poeta, sólido afinal
Apossa-se da foice ou do martelo
Para investir do aqui e agora o capital
No produzir real de um mundo justo e belo
Celebra assim, mortal que já se crê
O afazer como bem ritual
Cessar da obsessão pelo supremo ser
Nascer do prazer pelo social
(E o poeta grita)

Trocar o logos da posteridade
Pelo logo da prosperidade

Eis o papel da grande cidade
Eis a função da modernidade...


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